Sesc Pompeia

Sesc Pompeia

“Como Penso Como”

Apresentação, agosto 2013


Comer e pensar são atos que perpassam do efêmero alimento ao perpétuo pensamento, como numa dança barroca. Tal movimento salienta a cultura espontânea que somos, esse país hiperbólico em que a criatividade delineia o caótico. As referências brasileiras são deglutidas à maneira antropofágica e devolvidas como identidades indeléveis. Uma cultura que se baseia na comida para sempre se voltar a si: Como, logo, penso.

Um tempero misto de exagero, medo, coragem, trauma e afeto moldou o brasileiro para escolher e fortalecer os ícones que o representam no âmago de sua mestiçagem. Nem todo pensamento é duradouro, nem todo alimento é perecível. Os valores do comer e do pensar se invertem e se servem do rebuscamento bem humorado que flerta com o caos, estado conveniente da criatividade que impera nas artes culinárias. Cru ou cozido? Ideias cruas e comida cozida? Ideias cozidas e comida crua? A complexidade do brasileiro está guardada há poucos séculos de história e há longos anos de cozimento antropológico.

Food Design, conceito de referência internacional do trabalho que alia o desenho artístico com alimento, se torna demasiado sintético para essa proposta. A exposição entende o termo de uma outra maneira, pois comer/pensar se alicerça no alimento como Obra Positiva, isto é, objetos e ingredientes sugerem cultura e história, códigos de processo e até hierarquias. O repertório ornamentado da cozinha ora subverte o cotidiano, ora o homenageia.

Os balangandãs se fiaram na joalheria mística e popular composta de frutas e patuás de proteção e povoaram as cinturas das negras de boa sorte. Carmen Miranda os assimilou passando-os da cintura à cabeça. Finalmente, as baianas do carnaval se apoderaram dos enfeites que foram do folclore escravo à cultura de massa, para fixarem seu lugar seguro novamente na tradição.

Da estrutura lisérgica do Bolo de Rolo, percebe-se que o seco produto pernambucano evoca o molhado Rocambole da Europa Central sem sê-lo e é o resultado de uma obra de design intuitivo, proveniente da necessidade do belo/bom que os olhos humanos insistem em imitar da natureza e sua proporção simétrica, mas também de uma cultura erigida no recalque que fez da alegria, Carnaval; da revolução, Cangaço; das preces e promessas, Festa do Divino.

As receitas propõem uma miríade de questionamentos aleatórios, dialéticos e irônicos sobre o fazer empírico, a representação simbólica e o desenho – sem prescindir das meticulosas técnicas gastronômicas da contemporaneidade. Sincretismo religioso, rituais, músicas, banquetes, relevos em metal, escultura em ossos, Cinema Novo, Manifesto Antropofágico, Tropicalismo, corrupção, manuais de boas maneiras, outras coisas e diversos conceitos cabem num tabuleiro fresco e inovador que extermina o fast food e também não compactua com a cozinha internacional padronizada. A crítica e a estética da exposição se conservam no gosto do presente e no retrogosto do passado.

O galpão do SESC Pompeia, cuja sinédoque é Cidadela da Liberdade, dá luz a esta gastronomia laboriosa e divertida, desse itinerário sinuoso em que os conhecimentos empíricos e acadêmicos se confundem para nunca mais serem separados, para, enfim, dilatar os sentidos da arte, para manifestar a dádiva do hibridismo, contra a desarmonia entre o saber intelectual e o saber do mundo.

O paladar se eterniza no pensar.

 

Como Penso Como - Simone Mattar - Como Penso Como