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Arte, Performance

Antonin Artaud e a arte da performance


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O francês Antonin Artaud (1896-1948) foi poeta, ator, escritor, dramaturgo, roteirista de cinema, anarquista, e principalmente uma figura libertária nas artes, utilizando traços do surrealismo.

No livro “Teatro e seu Duplo” (Le Théâtre et son Double), de 1935, escreveu sobre a importância do grito e da respiração, e do corpo como lugar primordial do ato teatral, rejeitando a supremacia da palavra.

As associações do artista, conforme ele mesmo, acabariam com barreiras que distanciavam ator e plateia, fazendo com que todos, numa sala de espetáculo, integrassem o processo teatral.

Depois de sua obra-manifesto, Artaud elaborou uma técnica vocal em que a voz tinha que bater, cavar, espetar, tremer, e a palavra deveria tomar uma dimensão material, transformando-se em gesto e ato.

Nos anos 30, chegou a dizer que o teatro era o lugar em que se refazia a vida. Mas, depois de uma temporada num hospício, afirmou que a prática teatral é o local em que o corpo se refaz como um todo.

Em cartas a amigos, observou que, uma vez libertado de seus automatismos, o corpo se abre para a dança do universo. Escreveu que «o teatro precisa encontrar sua verdadeira linguagem, sua linguagem espacial, dos gestos, atitudes, de expressões e mímica, sua linguagem de gritos, onomatopeias e ruídos, em que todos os elementos objetivos se transformam em sinais, sejam visuais ou sonoros, mas que terão tanta importância intelectual e significado quanto as palavras.»

Seus manifestos expressionistas são até hoje referência de arte-performática. No Brasil, inspirou artistas como Denise Stoklos e seu Teatro Essencial. Zé Celso, do Teatro Oficina, é outro que bebeu das fontes de Artaud. No ano passado, apresentou com seu grupo “Para dar um Fim no Juízo de Deus”, de Antonin Artaud. Trata-se de uma peça radiofônica sobre o Juízo Final, e acabou sendo proibida na França em 1948. Em meio a uma cacofonia de ruídos, era anunciado o fim do mundo.

Em 1969, Gilles Deleuze publicou “Como construir um corpo sem órgãos”, estruturado sobre a noção de corpo no teatro performático que Artaud apresentava em sua peça de rádio repleta de grunhidos. Para Deleuze, a mensagem da peça alcança o ouvinte em seu âmago, forçado-o a romper sua letargia, e manifestar ideias e desejos.

O filósofo Jacques Derrida, fã confesso de Artaud e autor de vários textos sobre sua obra, disse numa entrevista à revista Regards: «O teatro foi o grande interesse de sua vida. Mas também foi uma revolta contra o teatro que havia na época. Seu chamado “teatro da crueldade” implicava uma ruptura, até uma destruição de todo aquele teatro de representação, da palavra, do teatro que sujeitava o corpo ao texto do autor. Contrariamente ao que atribui a ele, Artaud não queria que o ator improvisasse. Ele era a favor de que todo gesto em cena fosse prescrito com precisão calculada. Mas essa prescrição não significava que o ator deveria obedecer a um texto previamente falado. Há uma grande coerência entre o teatro da crueldade e a pintura. Ele até chamou um de seus quadros de “Teatro da Crueldade”. Para ele, as duas artes são a mesma experiência.»